
Apesar das boas iniciativas para diminuir os casos de dengue no Brasil, desde o uso de vacinas até novas tecnologias para combater o mosquito, o país deve continuar a enfrentar um número alto de casos da doença pelas próximas décadas. A avaliação é do infectologista Julio Croda, pesquisador da Fiocruz e professor da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS).
“A gente vai ter, nos próximos dez, 20 anos, muitos casos de dengue. Eventualmente eles podem ter um impacto menor, à medida que aumentemos a cobertura dessas novas tecnologias de prevenção, mas não devemos observá-lo no curto e médio prazo”, afirma o médico.
Em entrevista ao Metrópoles, Croda falou sobre o cenário atual da dengue e de outras arboviroses (doenças transmitidas por mosquitos) no Brasil. Para ele, embora as estratégias de controle adotadas sejam necessárias, a doença seguirá sendo ameaçadora, especialmente em momentos de altas temperaturas e umidade, onde a proliferação do mosquito cresce.
Segundo o infectologista, mais do que um cenário que possamos pensar na eliminação da doença, ainda estamos caminhando para o controle da epidemia. “O momento é de esperança, mas ainda teremos por muito tempo pessoas suscetíveis, tanto aquelas que não puderem receber a vacina como as que vivem em locais onde os controles ao mosquito não foram tão eficazes”, indica.
Para ele, ainda estamos distantes de chegar ao que alcançamos na febre amarela, outra grave doença transmitida pelo Aedes aegypti. “A febre amarela é uma doença de zona rural, com uma vacina que tem eficácia extremamente elevada para prevenir também a doença assintomática, e com uma proteção bastante duradoura. Ainda não temos os dados das duas vacinas da dengue em relação à sua eficiência a longo prazo e, de toda forma, precisaríamos vacinar 80, 90% da população para chegarmos a um cenário parecido”, avalia ele.
Casos esperados de dengue para 2026
“O infográfico da Fiocruz fez uma predição de aproximadamente 1,8 milhão de casos prováveis de dengue para esse verão, sendo que a região mais afetada deve ser a Sudeste, principalmente em São Paulo e Minas Gerais, além de Santa Catarina, Distrito Federal, Mato Grosso do Sul e Tocantins”, afirma Croda.
Se os números se confirmarem, 2026 será o quinto ano consecutivo em que o país ultrapassa a marca de 1 milhão de diagnósticos, com um leve aumento em relação a 2025, que teve 1,6 milhão. O recorde segue com 2024, quando os casos ultrapassaram a marca de 6,5 milhões de pessoas atingidas.
O que explica o boom de casos?
Os recordes sucessivos registrados nos últimos três anos decorreram de fatores climáticos globais e locais. O aumento da temperatura média no Brasil favorece a reprodução do mosquito e também sua circulação em localidades de clima mais ameno onde antes ele não estava presente.
“No pico de 2024, por exemplo, tivemos uma confluência do boom de casos com o El Niño, que contribuiu para esse contexto. Esse processo amplia áreas de risco e expõe populações sem histórico prévio de contato com o vírus, situação que favorece novos surtos”, afirma ele.
Em regiões onde o mosquito não circulava de forma intensa, parte expressiva da população não desenvolveu imunidade, já que ela só é adquirida a partir do contato com os sorotipos da doença. “Esse fator sustenta a continuidade da transmissão, já que há diferentes formas da doença circulando sempre entre diferentes pessoas”, conta.
Nos últimos anos, houve a circulação predominante dos sorotipos 1 e 2 da dengue, mas em 2024, começou um aumento de casos do tipo 3, sobretudo nas regiões Sudeste e Centro-Oeste. “Esse sorotipo não circulava havia mais de dez anos e a população apresenta baixa imunidade específica contra essa variante. Esse contexto eleva o risco de novos casos, inclusive em áreas que enfrentaram epidemias recentes”, defende Croda.
As vacinas da dengue
O Brasil dispõe atualmente de duas vacinas contra a dengue. A primeira, a Qdenga da Takeda, foi lançada há dois anos e é destinada para crianças e adolescentes. Recentemente o país passou a contar também com imunizante desenvolvido pelo Instituto Butantan, que começará a ser aplicado neste mês.
Em ambos os casos, o número de doses disponíveis permanece restrito, o que impede um impacto imediato sobre a transmissão em escala nacional.
Um acordo que seria celebrado entre a Fiocruz e a Takeda para aumentar a distribuição da vacina com a produção no Brasil, acabou não prosperando pelo desacordo entre as partes sobre o compartilhamento da tecnologia para fazer o imunizante.
“Seria muito salutar que mais empresas e laboratórios públicos pudessem produzir a vacina da dengue, aumentar o número de doses disponibilizadas para que a gente possa ter a maior parte da população imunizada o mais rápido possível. Mas não há concorrência. As vacinas formam um cenário complementar com progressão das faixas etárias, com a da Takeda indicada para crianças e adolescentes e a do Butantan para adultos”, defende Croda.
Outras estratégias de proteção
A vacinação não é a única estratégia de proteção. Também tem ganhado maior escala no Brasil a difusão de mosquitos infectados com a bactéria Wolbachia, que impede a reprodução dos insetos.
“Eles têm sido soltos em várias cidades e o monitoramento ocorre por meio de armadilhas que medem porcentagem de mosquitos com a bactéria em áreas específicas. Em breve, esperamos ter regiões com 60, até 80% dos insetos capturados infectados com ela”, pondera.
Apesar do potencial, essa tecnologia depende da lentidão dos ciclos de reprodução dos próprios insetos. Enquanto isso, medidas tradicionais seguem necessárias com a eliminação dos focos domiciliares. “É a mesma estratégia que já conhecemos: evitar água parada, acúmulos de lixo e usar repelentes e roupas adequadas para proteção pessoal”, concluiu o pesquisador.
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