Especialistas explicam avanço de filmes estrangeiros no Oscar





Para além do glamour em torno da premiação e das estatuetas douradas, consideradas o ápice do sucesso, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, responsável pelo Oscar, costuma virar alvo de debates por supostamente favorecer filmes e atores norte-americanos. Para os brasileiros, a crítica é recorrente: apenas em 2025 uma produção nacional ganhou destaque em Melhor Filme, a mais desejada categoria da noite, ultrapassando a barreira de Melhor Filme Internacional.


O longa brasileiro Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, recebeu três indicações, nas categorias Melhor Filme Internacional, Melhor Atriz e Melhor Filme. O longa com Fernanda Torres levou a estatueta de Melhor Filme Internacional, marcando também a primeira vez que o país leva esta categoria. Agora, a esperança do Brasil ganhar em Melhor Filme pela primeira vez se renova com O Agente Secreto.


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A produção de Kleber Mendonça Filho recebeu quatro indicações: Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Ator e Melhor Elenco. Esta última estreia na premiação deste ano, reconhecendo o trabalho de diretores de elenco.

Apesar das boas novas para o Brasil, que resgatam a importância do cinema nacional e de seus profissionais como potência mundial, não é bem uma novidade que a Academia escolha filmes não americanos para a categoria de Melhor Filme. A primeira vez foi em 1939, 10 anos depois da primeira edição do prêmio, com o filme francês A Grande Ilusão.


A primeira vitória só veio em 2012, quando o longa O Artista, também da França, ganhou a principal categoria da noite. O filme, no entanto, abre debates por ser mudo. Ou seja, ele não é necessariamente falado em outra língua, apenas produzido por outro país que não os Estados Unidos.


Veja a lista:


Lista de filmes indicados na categoria Melhor Filme do Oscar - Metrópoels


O Oscar se abre para o mundo?


“Historicamente, o Oscar foi um prêmio da indústria americana para a indústria americana, ainda que com uma vitrine internacional. Quando filmes estrangeiros começam a disputar Melhor Filme, e não apenas Filme Internacional, há, sim, um deslocamento simbólico relevante. No entanto, é preciso diferenciar gesto institucional de transformação estrutural”, afirma Gabriel Amora, crítico de cinema.


Para especialistas no mundo do cinema, a presença cada vez mais crescente de filmes não americanos se dá, entre outros fatores, pela abertura da Academia para votantes de outras nacionalidades.


No caso do Brasil, por exemplo, estão os atores Fernanda Montenegro, Fernanda Torres, Wagner Moura, Sônia Braga, Rodrigo Santoro, Alice Braga, Selton Mello e Maeve Jinkings. Já na aba de diretores aparecem Walter Salles, Kleber Mendonça Filho, Fernando Meirelles, José Padilha, Anna Muylaert, Karim Aïnouz e Petra Costa.


“Não se trata de uma ruptura completa, já que Hollywood continua sendo o centro do sistema, e essas indicações ainda são raras quando observamos a história em perspectiva”, alega a cineasta Cíntia Domit Bittar.

“A Academia ampliou seu quadro de votantes nos últimos anos, incorporando mais membros internacionais, mulheres e profissionais fora do eixo tradicional de Hollywood. Isso altera o perfil de votação. Mas o centro financeiro, de distribuição e de lobby ainda é majoritariamente norte-americano. Ou seja, existe abertura, mas dentro de uma hierarquia que permanece”, completa Amora.


É importante lembrar que, ainda hoje, 70% dos votantes para o Oscar são radicados nos Estados Unidos. A festa ainda é deles. 

Vitor Grilo, realizador audiovisual

E o Brasil?


No caso do Brasil, o cenário não muda. O primeiro filme totalmente brasileiro indicado na categoria de Melhor Filme foi Ainda Estou Aqui, no ano passado — 86 anos depois da criação do maior prêmio do cinema mundial.


“Existe um movimento de descentralização , é um prêmio da indústria cinematográfica dos Estados Unidos. Ele reflete, antes de tudo, os interesses, a cultura e as dinâmicas de poder desse próprio ecossistema. O que mudou nos últimos anos foi uma maior permeabilidade, impulsionada pela internacionalização gradual da própria Academia”, afirma Cíntia.

Amora, por sua vez, pontua que a Academia está mais aberta artisticamente, mas também se preocupa com a sua própria imagem pública. O Brasil, inclusive, virou figurinha carimbada nas redes sociais da premiação, provando o engajamento que o país entrega quando se trata de suas produções.


“Talvez a melhor resposta seja esta: a Academia está mais aberta porque precisa estar. A abertura artística e a consciência de imagem não são opostas; são parte de uma mesma reorganização. O desafio agora é saber se essa transformação será duradoura ou se permanecerá condicionada às pressões do momento”, garante.





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