
“Um vazamento explosivo ameaça a candidatura de Flávio Bolsonaro”. Assim descreveu o jornal britânico The Economist, um dos veículos mais importantes de finanças e política do mundo, a divulgação de conversas entre o filho “01” do ex-presidente Bolsonaro e Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.
Os diálogos entre o senador, hoje pré-candidato à Presidência da República, e o banqueiro, que está preso, foram revelados pelo site The Intercept Brasil e jogaram o projeto político de Flávio em uma espiral de incertezas.
O site publicou uma série de registros que indicam a existência de uma negociação em que Daniel Vorcaro se comprometeu a repassar um total de 24 milhões de dólares (na ocasião, cerca de 134 milhões de reais) para financiar a produção de “Dark Horse”, filme biográfico sobre Jair Bolsonaro. Os registros mostram ainda que 61 milhões de reais já teriam sido pagos entre fevereiro e maio de 2025, em seis transferências bancárias destinadas ao financiamento do projeto.
As conversas vazadas revelam uma intimidade vexatória com o banqueiro que protagonizou um dos maiores escândalos financeiros da história do Brasil. Elas ocorreram justamente em um período em que as fraudes de Vorcaro vinham à tona, juntamente com suas consequências penais. “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz! Abs!”, escreveu Flávio Bolsonaro a Vorcaro no dia 16 de novembro do ano passado, um dia antes da operação da Polícia Federal que prendeu o ex-dono do Banco Master no Aeroporto de Guarulhos.
Em entrevistas à imprensa, Flávio rebateu com veemência qualquer intimidade com Vorcaro e atribuiu o uso da palavra “irmão” ao seu jeito carioca de falar. No entanto, as negativas de conhecer o banqueiro e de ter qualquer relação financeira com ele antes do vazamento das conversas – o senador chegou a gargalhar diante de um repórter do The Intercept e chamá-lo de “militante” ao ser questionado sobre o dinheiro de Vorcaro para o filme “Dark Horse”- , além da revelação de uma mensagem em que Flávio pede para levar o pai, Jair Bolsonaro, à mansão de Vorcaro para assistirem juntos a um documentário sobre o ex-presidente, apontam justamente o contrário.

Mesmo tendo voltado agora todos os seus esforços, antes concentrados na pré-campanha presidencial, para administrar a gigantesca crise em que se envolveu, utilizando entrevistas para tentar se explicar, o estrago já está feito.
A exposição das conversas entre Flávio e Vorcaro provocou, por exemplo, uma mudança significativa nos mercados de apostas políticas. De acordo com levantamento da plataforma Aposta Legal, especializada em monitoramento de sites de apostas e cassinos online, a repercussão do caso afetou diretamente as projeções eleitorais do parlamentar.
Na Polymarket, a estimativa de vitória de Flávio Bolsonaro na disputa presidencial caiu de 43% para 28,4% em apenas 24 horas. Ao mesmo tempo, o ex-governador de Minas Gerais, Romeu Zema, do Novo, registrou forte crescimento nas apostas e viu suas chances praticamente dobrarem dentro da plataforma.
Além dos efeitos econômicos de uma crise envolvendo o principal opositor de Lula da Silva para o pleito deste ano, a Ibovespa despencou e o dólar subiu no dia da revelação dos áudios, há também impactos nas redes sociais.
Leia também: Os 5 pontos cruciais que Flávio não conseguiu responder sobre o dinheiro de Vorcaro
Levantamento atualizado às 18h de quinta-feira, 14, pelo sistema Hórus, ferramenta de monitoramento em tempo real da AP Exata, aponta um aumento expressivo na rejeição ao senador. De acordo com a empresa, 64,3% das citações sobre o parlamentar nas redes e no ambiente digital tiveram teor negativo, o maior percentual registrado desde o início de sua pré-campanha e o pior desempenho entre os nomes analisados.
A AP Exata informa ainda que, após a publicação da reportagem do Intercept Brasil, o volume de menções negativas ao senador avançou sete pontos percentuais.
O problema mais grave, porém, é que o escândalo envolvendo o banqueiro Vorcaro já estaria respingando no projeto político de Flávio Bolsonaro, bombardeando, a cada novo vazamento ou declaração do próprio senador, suas chances eleitorais, antes promissoras e em crescimento. Com isso, cresce também o temor de que aliados sejam afetados.
Palanques e candidatos
Ainda não há nada definido, até porque, até as convenções, sabe-se que tudo pode acontecer. Mas, até a última semana, o PL tinha na mesa a pré-candidatura confirmada ao governo de ao menos 11 estados: Mato Grosso, Amapá, Paraíba, Paraná, Rio de Janeiro, Santa Catarina, Espírito Santo, Rio Grande do Sul, Pará, Minas Gerais e Goiás. Neste último, o projeto é liderado pelo senador Wilder Morais, que, inclusive, “caçou briga” dentro do próprio partido para viabilizar sua pré-candidatura.
Wilder teria atropelado as negociações da figura mais proeminente do PL goiano, Gustavo Gayer, para lançar-se em uma disputa que muitos consideravam uma aventura. E, se antes o PL ensaiava pisar em terra firme, com a possibilidade de Gayer concorrer ao lado de Gracinha Caiado ao Senado pela base governista, potencializando as chances de o partido cumprir sua meta em Goiás, eleger ao menos um senador e o maior número possível de deputados federais, agora a legenda parece patinar com um pré-candidato ao Executivo que aparece em terceiro lugar nas pesquisas de intenção de voto.
Segundo analistas, o pré-candidato bolsonarista aposta justamente na imagem ligada a Bolsonaro para crescer nas pesquisas, o que, em tese, pode funcionar em um estado considerado reduto bolsonarista. No entanto, um escândalo de proporções “master”, ou melhor, Banco Master, como o atual, pode mudar o rumo das coisas.
Bolsonaristas da cúpula do PL em Goiás negam que a crise envolvendo Flávio vá interferir no pleito estadual. Segundo eles, Flávio será capaz de administrar bem a situação. Um dos que apostam nisso é o vereador de Goiânia Oséias Varão, considerado um dos maiores estrategistas do PL em Goiás.

Ao Jornal Opção, o parlamentar, que é pré-candidato ao Senado ao lado de Gustavo Gayer, afirmou que, pelo que tem acompanhado, “Flávio veio a público e deu explicações , e o público tem assimilado bem as explicações dele”.
“Ele continua bem posicionado. Estou acreditando que esse fato não terá impacto. Até onde pude ver, a reação dele tem sido boa e parece-me que o eleitorado está entendendo bem toda a questão”, avaliou.
Já Maycllyn Carreiro adotou um tom mais cauteloso. Segundo ele, “ainda é muito cedo para concluir qualquer impacto”.
Não dá para concluir neste momento, porque depende de como será a repercussão em Brasília. Porém, Flávio tem sido muito coerente ao se explicar
Carreiro foi um dos poucos prefeitos do PL que “sobreviveu” à recente debandada de gestores da sigla e, apesar de admitir manter diálogos com Daniel Vilela, reiterou sua permanência no partido e o apoio a Wilder Morais e ao projeto político do senador.
Questionado se a crise envolvendo Vorcaro pode fragilizar o palanque de Wilder em Goiás, que tem como principal sustentáculo justamente os movimentos de Flávio, o prefeito de Morrinhos negou e pontuou que a “força de Wilder não depende somente do bolsonarismo”.

“Eu vejo que o Wilder tem candidatura própria. Ele tem a força do bolsonarismo, mas também tem sua própria história. Fez composição com o partido Novo, montou a chapa para o Senado. Ele tem força. Wilder não é candidato apenas do bolsonarismo, até porque ninguém é eleito por um único grupo em uma eleição majoritária”, afirmou.
Maycllyn Carreiro ainda crava que a candidatura de Wilder Morais ao Palácio das Esmeraldas é um caminho sem volta, e que o senador só recuaria “por algum motivo de cunho pessoal”, e não por causa das pesquisas, que o colocam em segundo ou terceiro lugar.
“A candidatura dele já se consolidou. Ele não recua”, garantiu.
Tanto Oséias quanto Maycllyn afirmaram ainda que a situação envolvendo Flávio não deve afetar sua visita a Goiás, prevista para o dia 27 de maio. “Ele estará aqui, firme.”
Nada a perder?
O cientista político Guilherme Carvalho faz coro à análise dos bolsonaristas. Ao Jornal Opção, Carvalho afirmou estar cético quanto à possibilidade de o escândalo “Flávio-Vorcaro” afetar a campanha de Wilder Morais em Goiás.
“Eu acho que ele é candidato por si só, não por causa de mais ninguém. O que quero dizer é que talvez essa seja a decisão mais simples que ele já tenha tomado em termos de candidatura. Se perder a eleição, independentemente da margem, continuará com mandato no Senado por mais quatro anos. E dificilmente alguém recusaria o apoio dele em 2028 ou deixaria de considerá-lo aliado em uma chapa em 2030”, analisa.

O especialista pontua ainda que, mesmo com o ambiente de caos na campanha de Flávio, do ponto de vista político, trata-se de uma disputa relativamente confortável para Wilder.
“Ele deve contar com o palanque bolsonarista e também com o voto bolsonarista na reta final da eleição. Por isso, não vejo motivo para uma desistência , a não ser por razões estritamente pessoais”, diz.
E acrescenta: “Politicamente, faz todo sentido que Wilder permaneça na disputa. E, se Flávio sair do cenário, ele provavelmente encontrará outro grupo ou palanque ao qual possa se vincular”.
Mesmo uma eventual saída de Flávio da disputa não necessariamente representaria um impacto decisivo a ponto de comprometer toda a campanha de Wilder. Não me parece que o cenário caminhe nessa direção
Para Guilherme Carvalho, mesmo que Flávio deixe a disputa, Wilder encontraria apoio em outra figura da direita, como o ex-governador de Minas Gerais, Romeu Zema.
“Wilder já demonstrou capacidade de resiliência e habilidade para atravessar cenários politicamente difíceis. O desgaste envolvendo Flávio certamente cria obstáculos e interfere no planejamento inicial da campanha, mas não parece algo que inviabilize sua reorganização. A estratégia dele ainda passa pela expectativa de herdar parte do voto bolsonarista quando a campanha eleitoral começar de fato”, conclui.
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