
Quando Gizele Barbosa lembra do nascimento do filho, Vinícius, há oito anos, a memória ainda carrega a mistura de medo, fé e incerteza que marcou os primeiros dias do nascimento prematuro.
Vinicius chegou ao mundo com apenas 31 semanas de gestação. Era pequeno, frágil e respirava com dificuldade. Logo após o parto, precisou ser levado à UTI Neonatal (UTIN), onde ficaria internado por 62 dias.
“Foram, pelo menos, 50 dias em estado grave. Todos os relatórios eram desanimadores. Ele sangrava muito e não conseguia respirar sozinho”, relata a mãe.
O período mais intenso coincidiu com o momento em que Gizele, diante do sofrimento do filho, fez uma oração de entrega. “Eu disse a Deus que, se fosse da vontade dele, eu o entregava. Foi o momento mais difícil da minha vida, mas eu não queria vê-lo sofrer”, conta.
A partir dali, pequenas melhoras começaram a surgir. Em alguns dias, Gizele sequer podia abrir a portinhola da incubadora; em outros, ouvia dos profissionais: “Hoje você pode tocar nele”. Cada gesto simples era uma vitória.
Nesse caminho, a mãe destaca o papel fundamental da equipe da UTIN — especialmente da neonatologista Sandra Lins, do Hospital Santa Lúcia, em Brasília, que coordenou o cuidado.
“Cada bebê prematuro precisa de cuidado preciso, individualizado e contínuo. Quando atuamos de forma integrada, aumentamos significativamente as chances de que essa criança cresça forte, saudável e plenamente capaz”, conta a neonatologista.
Hoje, Vinícius é uma criança saudável, ativa e cheia de energia. Para a família, ele simboliza o que a assistência especializada pode proporcionar quando a prematuridade chega sem aviso.

Bebês prematuros podem se tornar crianças saudáveis?
Segundo o Ministério da Saúde, o Brasil registra entre 300 mil e 340 mil nascimentos prematuros por ano, o equivalente a 11% a 12% dos nascidos vivos. É um desafio de saúde pública que exige prevenção, cuidado especializado e acompanhamento contínuo.
A neonatologista Gislayne Souza de Nieto, membro do Departamento de Neonatologia da Sociedade Brasileira de Pediatria, explica que tudo começa com um pré-natal adequado e com equidade.
“O ideal é que, quando o parto prematuro se concretiza, ele aconteça em hospital terciário, com UTI neonatal e profissionais capacitados”, afirma.
Dentro da UTI, uma série de intervenções aumenta significativamente as chances de recuperação. A reanimação neonatal adequada na sala de parto reduz complicações pulmonares, o uso precoce de colostro e leite materno favorece a imunidade e a formação da microbiota e estratégias como o Método Canguru, que estimula o contato pele a pele com a família, aceleram a estabilidade térmica, fortalecem o vínculo e reduzem infecções.
O avanço tecnológico também faz diferença. A redução do tempo de ventilação invasiva por meio de Pressão Positiva Contínua nas Vias Aéreas (CPAP neonatal) previne danos pulmonares e diminui o risco de doença pulmonar crônica.
Após a alta, o seguimento multiprofissional é decisivo: vacinação em dia, avaliação nutricional e neurológica, consultas oftalmológicas e audiológicas, além de encaminhamento para fisioterapia ou fonoaudiologia quando necessário são essenciais.
“O ideal é que essas crianças sejam acompanhadas em centros especializados de seguimento do recém-nascido de risco”, reforça Nieto.
Segundo a Organização das Nações Unidas (OMS) bebês prematuros têm até sete vezes mais risco de internação no primeiro ano de vida, além de maior probabilidade de desenvolver complicações respiratórias e neurológicas sem acompanhamento adequado.
Mas, com cuidado especializado, acompanhamento contínuo e apoio integral às famílias, bebês que lutam pelos primeiros minutos de vida podem — e têm conseguido — crescer fortes, saudáveis e cheios de possibilidades.
Histórias como a de Gizele e Vinícius reforçam o quanto uma rede de apoio e acompanhamento especializado fazem diferença. “A equipe foi fundamental para transformar a nossa angústia em esperança”, diz a mãe.
Hoje, ao ver o filho correr, brincar e aprender, ela sente que a trajetória dolorosa se converteu em celebração. A prematuridade, embora desafiadora, não define o futuro.
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