Além da guarita: porteiros viram elo contra solidão e isolamento de idosos
O olhar atento e a companhia do porteiro podem fazer a diferença para idosos que moram sozinhos e enfrentam o risco e o medo da solidão
Papel dos porteiros: a atenção de funcionários de prédios à rotina de idosos que vivem sós atua como uma rede de apoio e segurança, sem substituir familiares ou profissionais de saúde;
Dados sobre solidão: relatório da OMS de junho de 2025 aponta que 11,8% dos idosos no mundo experimentam solidão, sendo a incidência maior entre mulheres;
Iniciativa pública: a Prefeitura de Belo Horizonte implementou em junho de 2026 o programa Porteiro Amigo do Idoso.
Após uma vida inteira acompanhada, aos 76 anos, Mailde da Silva Cândido experimenta, pela primeira vez, a solitude e a independência de viver só. Depois que os três filhos se casaram, o marido e sua ajudante morreram, a aposentada foi obrigada a encarar uma nova dinâmica. “Agora, sou só eu e o cachorrinho”, conta.
Quando se viu sozinha, Mailde decidiu se mudar para o mesmo prédio onde mora a filha, Lidiane da Silva Cândido, de 45 anos. A aposentada inaugurou a nova fase da vida em um período de fragilidade emocional, quando fazia uso de medicamentos e tentava se adaptar às perdas e à experiência inédita de morar sozinha.
Foi conhecendo os porteiros que o medo de ficar só passou. “No fundo, estou me dando muito bem. Descobri que, se eu precisar de apoio, não fico sem ajuda”, afirma. Quando passou mal e se desequilibrou, foi o porteiro Luiz Carlos Barreto, 45, que a segurou, acompanhou-a até em casa e só sossegou quando Mailde estava sã e salva na própria cama. Há um ano morando sozinha, hoje não passa um dia sem descer no meio da tarde para tomar um cafezinho com a equipe do prédio.
A situação de Mailde é cada vez mais comum em uma sociedade que está envelhecendo rapidamente. Há idosos que escolheram preservar a própria independência, outros que passaram a viver sós depois da morte de familiares ou de mudanças na configuração da família.
As trajetórias são diferentes e não significam, necessariamente, solidão ou falta de autonomia. Em comum, os idosos independentes podem contar com o olhar atento dos porteiros.
A relação pode aparecer em situações simples, como ao carregar as compras ou o cumprimento ao chegar ao prédio, mas ganha outra dimensão quando alguém percebe uma mudança de comportamento, uma ausência incomum ou a necessidade de ajuda.
Para idosos que moram sozinhos, saber que existe uma pessoa conhecida a poucos andares de distância pode representar companhia e até uma sensação maior de segurança, sem retirar a independência de quem escolheu continuar vivendo na própria casa.
Muitas vezes, um “boa noite”, ou escutar o próprio nome, é suficiente para que o idoso que mora sozinho se sinta parte da comunidade ou perceba que sua falta e presença são notadas. As relações, mesmo as menores e mais simples, também são essenciais para garantir o envelhecimento feliz, saudável e seguro.
Os idosos modernos montam suas próprias redes de apoio, que incluem familiares e amigos para garantir companhia mesmo quando a rotina se limita ao lar. Mas, quando a situação aperta, os olhares atentos da portaria podem fazer a diferença.
Em prédios cada vez mais cheios de idosos, como o de Mailde, os porteiros passaram a prestar atenção extra no ir e vir dos moradores. Aos 83 anos, Katy Cox começa os dias cedo. A primeira companhia da manhã é Sunny, a cachorrinha com quem costuma sair para caminhar. A rotina é tão conhecida pelos funcionários do prédio onde vive que bastou Katy não aparecer no horário habitual para que Luiz e outro porteiro percebessem que algo estava fora do padrão.




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